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Na passada semana, Catarina Martins e André Ventura subiram ao “palco” para um debate presidencial que, na teoria deveria ser uma oportunidade para discutir ideias, propostas e visões para o futuro de Portugal. Na prática, transformou-se num espetáculo absolutamente deplorável de ataques pessoais, intolerância e ausência quase total de conteúdo substantivo. O que vimos foi, na minha opinião, um confronto que, mais do que informar eleitores, os insultou e os desrespeitou.

O debate começou com uma série de acusações mútuas que rapidamente desviaram o foco da discussão política. André Ventura, como é hábito, apela ao medo, e à retórica xenófoba. A candidata de esquerda respondeu ao mesmo nível, embora com foco distinto. O ponto central é que aquilo que realmente interessa a quem quer compreender a política, perdeu-se.

O tom degradou-se rapidamente. Desde insultos a acusações, a favorecimento de interesses, preencheram um vazio deixado pela ausência quase total de propostas concretas. De facto, a política tornou-se num ringue de provocações, onde a inteligência e a competência foram substituídas por ataques pessoais e pelo show-off.

O que deveria ter sido um confronto de ideias sobre o papel do Presidente da República, sobre direitos, justiça social, coesão nacional e desafios institucionais, tornou-se num festival de agressividade verbal. Quem assistiu, percebeu imediatamente que os eleitores saíram mais confusos, menos informados e, acima de tudo, mais polarizados. Em vez de esclarecer, o debate confundiu. Em vez de propor soluções, acentuou divisões e preconceitos.

Este tipo de debate tem consequências negativas e muito concretas para democracia. Quando o espaço mediático mais visível da campanha eleitoral se reduz a trocas de insultos, a política perde credibilidade e o cidadão é colocado perante uma escolha baseada em emoção e em choque, ao invés de se basear na reflexão e análise. O desencanto cívico tende a aumentar, a polarização tende a acentuar-se e o debate público, por sua vez, é empobrecido, numa espécie de círculo vicioso que ameaça a própria qualidade da democracia.

Os debates presidenciais deveriam ser momentos altos da vida democrática, onde os candidatos são avaliados pelo conteúdo das suas propostas e pela sua capacidade de refletir acerca dos principais desafios do país. Este debate mostrou exatamente o contrário, a ausência de decoro, a emoção sobre a razão e a inversão de prioridades, que se refletem nas ofensas pessoais acima das ideias.

Portugal merece debates que eduquem, que esclareçam e que inspirem confiança nas instituições. O confronto entre Catarina Martins e André Ventura foi o oposto de tudo isso. Foi, na minha perspetiva, uma autêntica perda de tempo e de oportunidade, um espetáculo marcado pela intolerância e pelo vazio intelectual.

Se queremos cidadãos informados e uma democracia saudável, é urgente que os debates sejam repensados. Tenho insistido nesta matéria, a bem da democracia. Tem de existir rigor, respeito e substância. A política não se pode traduzir em insultos porque quando assim é, todos perdemos.

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