Ser mulher não é condição sagrada, nem motivo para se ser considerada boa pessoa, automaticamente. É, por outro lado, um estado de existir que nos coloca um alvo permanente nas costas. Ser mulher, é levar ao peito um vasto conjunto de preconceitos, e ser considerada objeto, escrava e possessão atribuída pela divindade. Já dizia o homem que escreveu o Velho Testamento: ser mulher é existir como dependência de uma costela masculina. Pelo menos assim, o acreditam os machos, amiguinhos do senhor Frazão da Opus Dei. E algumas mulheres que com ele privam, infelizmente.

Estamos nos dias que se seguem ao vinte e cinco de novembro, onde anualmente se usam espaços públicos para falar da violência contra as mulheres. Tenho por hábito escrever um ou mais artigos referentes a essas questões, mesmo que acredite que é debate para se ter o ano inteiro, e não apenas por estes frios dias. Este ano já o fiz, no âmbito da campanha internacional – Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres e Raparigas -, e aqui regresso, porque acabo de ler a reportagem que saiu na Visão sobre estes temas, e apeteceu-me voltar aos mesmos. Ser mulher deveria ser isso. Fazer o que me apetece, sem ter à perna os raivosos do ódio a desejarem-me morta, ou pior, submissa.

Claro que há mulheres ao serviço desses, também. Ao longo da história, sempre foram muitos os nomes femininos que se sentaram ao lado do extremismo. Sibilantes sorrisos de mulher que comandaram, nos bastidores, as estratégias de fascismos, imperadores e ditadores. Mais tarde, beneficiando da luta pela emancipação, mulheres como Thatcher, que envergaram a sua condição como uma muralha, mas usaram sempre as armas dos homens para oprimir as suas irmãs. Atualmente, é vê-las nos parlamentos deste mundo, defendendo os seus líderes, sempre machos, que as desejam apenas para objetificar e cumprir o sacrifício da Lei da Paridade. Por cá também as encontramos, ali na Horta, mensalmente, a apregoar o centralismo absolutista do transformismo dos três líderes masculinos do governo, ou sentadas ao lado do senhor que berra muito, batendo palmas cegamente. Foi, aliás, uma mulher, que recentemente apelou a que se cortem as refeições escolares em tempo de férias, no nosso arquipélago, sem vergonha de condenar famílias necessitadas à tristeza da fome.

No entanto, importa referir que mesmo essas mulheres, herdeiras de Thatcher, são mais facilmente atacadas pelos preconceitos da sua simples existência. Caso emblemático, que ficará para a história, é o de Marjorie Taylor Greene. Durante anos, foi uma das maiores defensoras de Trump e dos seus lacaios fascistas, chegando mesmo a apoiar as mais absurdas teorias da conspiração em torno do tenebroso movimento QAnnon. Recentemente, por alegadamente se ter compadecido com as vítimas do caso Epstein, voltou-se contra o regime, defendendo uma transparência que é sempre o calcanhar de Aquiles de qualquer monstrinho. Acabou crucificada publicamente, sendo apelidada de tudo e mais algumas coisas. Durante anos, não sofreu qualquer ameaça ou perseguição da oposição a Trump. Bastou-lhe umas semanas como adversária da extrema-direita para temer pela sua vida. De tal forma, que já renunciou ao cargo político que ocupava.

Também dos Estados Unidos emanou uma nova diretriz para os grunhos deste mundo: o ataque ao jornalismo. Claro que as mulheres, uma vez mais, são as que mais sofrem com isto. De pé no seu avião privado, agarrado a uma parede para apoiar a barriga e os seus tornozelos inchados, com o duplo e saliente queixo a tremelicar, Trump berrou com uma jornalista que lhe questionava sobre assuntos delicados referentes ao seu corrupto regime. Chamou-lhe de “porquinha”. Noutras circunstâncias, costuma chamar as jornalistas de “estúpidas”, “nojentinhas”, “incapazes” e outros nomes que tal. À frente das câmaras. De porta fechada, os nomes serão piores. Lembram-se de ele ter sido apanhado a dizer que gostava de agarrar as mulheres pela genitália, mesmo que elas não quisessem? Talvez seja por isso que Ronaldo gosta tanto de o elogiar.

Aqui no nosso arquipélago, quantas jornalistas, mulheres, já não sofreram ameaças, simplesmente por existirem? Perguntem-lhes! Perguntem a qualquer mulher das vossas vidas, quantas vezes se sentiu diminuída numa sala, simplesmente por ser mulher. Quantos foram os momentos em que necessitou de se vestir de forma mais conservadora, para procurar o mínimo de respeito de um homem, sem ser autorizada a usar o que lhe apetecer, como lhe apetecer. Que frases foram obrigadas a engolir, para não serem apelidadas de histéricas, emocionais, frígidas ou ninfomaníacas. Enquanto na sala ao lado, os homens gritam, babam as curvas da boazona e recusam expressar um sentimento positivo que seja.

Assim segue o nosso mundo. Gosto de acreditar que estamos melhor do que há umas décadas. Como diz a tal reportagem da Visão, já não nos calam com facilidade. Mas continuam a tentar. De todas as formas. Na rua oiço a Revolução. Vejo a greve geral, convocada que foi, também, por mulheres, líderes e resistentes. E vejo o combate ao fascismo, que se faz em muitas frentes, com muitas vozes femininas. Se eles não passarão, é apenas porque nunca nos calarão. O futuro, tal como o passado, é das mulheres deste mundo. Respeitem-nos. Ponto final.

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