Os debates em Portugal tornaram-se, nas últimas décadas, um espelho das transformações profundas do espaço público. Se recuarmos ao célebre confronto televisivo entre Soares e Cunhal, o “pai dos debates”, como ficou conhecido esse confronto, percebemos a dimensão histórica daquele momento. Era, de facto, mais do que um debate. Era um choque de visões sobre o futuro de um país. Duas ideologias distintas, claramente definidas e assumidas, confrontavam-se com coragem e com sentido de missão. Esse debate foi longo, denso, intelectualmente exigente e, acima de tudo, politicamente esclarecedor. O objetivo era convencer e clarificar. Hoje, o objetivo parece ser apenas o de impressionar.

Os debates atuais surgem num contexto totalmente diferente. Mais mediáticos, mais acelerados, mais dependentes da imagem do que da ideia. Se outrora a televisão era o grande palco da argumentação política, hoje é apenas o ponto de partida para a viralização. Hoje, os debates não terminam quando as câmaras se desligam. Prolongam-se em pequenos clips, em frases soltas e em soundbites que vivem sozinhos no espaço digital, sem a profundidade do contexto. Já não se debate para construir raciocínios mas sim para criar impacto. A política tornou-se uma espécie de exercício de captação e retenção de atenção e não num exercício de explicação de pensamentos.

As diferenças entre os debates de outrora e os atuais é visível não apenas na forma mas também no vocabulário dos candidatos. As perguntas e consequentes respostas não oferecem capacidade de desenvolvimento argumentativo. O confronto de ideias foi substituído pela gestão da imagem. Não se pretende discutir modelos de sociedade mas sim controlar perceções e evitar erros que possam ser fatais. O debate que deveria ser serviço público, parece agora tornar-se num produto televisivo que tende a gerar poucas audiências, na medida em que as pessoas começam a fartar-se destes modelos. Aos dias de hoje, os debates têm menos cultura democrática e mais cálculo tático.

Os tempos mudaram e a política também. Aos políticos, cabe a necessidade de saber comunicar com uma sociedade mais fragmentada e mais imediata. Mas isso não significa que devamos desistir da substância, do conteúdo. É possível ter dinamismo sem superficialidade. Falta ambição intelectual e política.

Impõe-se uma crítica construtiva. Portugal precisa de repensar o formato dos debates e, sobretudo, o seu propósito. Não se deve discutir apenas quem ganhou o debate, o que quer que seja que isso signifique, mas sim o que ficou mais claro sobre o país que queremos construir.

Os debates do passado mostraram-nos que é possível discordar em profundidade. Hoje, mostram-nos que é fácil discordar com superficialidade. A democracia portuguesa merece mais do que frases virais.

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