Se, como acontece com a verdade, a mentira tivesse apenas um rosto, estaríamos em melhor situação. Porque tomaríamos por certo o oposto daquilo que dissesse o mentiroso. Mas o reverso da verdade tem cem mil figuras e um campo indefinido¹.
Michel de Montaigne (1533-1592)
Enquanto na União Europeia a extravagante hierarca-mor se preocupa em suprir as necessidades financeiras da Ucrânia, sob escândalo de corrupção, um estábulo de Áugias, preferencial da NATO e da UE, trivialidade conquanto a subtrair recursos estratégicos, quem sabe poderá ascender à contingência de pressuposto da efusão da Aliança Atlântica, eufemismo para o expansionismo axial – processo pelo processo – e capitular das relações internacionais, ou seja, por um lado, a sonegação, um dano colateral e, por outro, a função de higiene existencial sob custódia política para alguns dos seus ungidos. Atrevo-me a inflacionar uma expressão que ouvi há pouco, a da “memória do esquecimento”, coisa, presentemente, pandémica. A realidade das causas do conflito, de guerra defensiva para os russos, reside na expansão da NATO até à Rússia, via Ucrânia e na guerra dos próprios ucranianos induzidos pelo Ocidente, contra os russos no Donbass. Alienação mental dos agressores, direi dos europeus e dos americanos, chegados a menos de 1000 km de Moscovo, que se acham sob o ataque de que são obrigados a defender-se.
No domínio da Banca em e de Portugal, como nesse domínio em e de qualquer outro espaço político, não obstante a falta de créditos para a abordagem técnica, na especialidade, o que está em causa não é a descriminação platónica, mas o que assenta no acordo implícito, o Contrato Social. Recentemente manifestou-se a indignação, estranhamente, sobre os milhões que os 5 maiores bancos, em Portugal, têm de lucro diariamente, sem pejo pela sua forma pública ou privada. Estranho, repito, porquanto muitos incautos deploram, um país, duas formas. Direi: faz lembrar aqueles, uns tantos cheios de si que professam o Paraíso, mas não querem ir para lá!
Republicanismo quanto desbaste, como conjunto democrático de fundamentos subsumido teria na gestão da “coisa pública” o escopo da Res publica. No ambiente político que se vive, não devemos ser idealistas ao ponto de uma devoção resoluta ao serviço público, atenção: do ângulo da análise política à forma pública do Estado. O objeto da República, desde que enveredou pela estratégia da codificação, aliada a intervenções editoriais e adesão à comunidade do diktat da norma – numa comunidade de Estados eurocomunitários de reis nus ̶ por política de assimilação nos sectores dos serviços e da finança, apenas não assume a sua redefinição, “genericamente” como no caso português, um Estado mandado, em ato mais recente para avalizar [2.5] mil milhões de euros de empréstimo à Ucrânia com a garantia do dinheiro confiscado ao Estado russo. Contra este uns ‘Estados unidos’ de Estados-membros com um governo-delegação, capturados entre a proporcionalidade, a prioridade e internalização sobrante, com lugar na fila mendicante em tempo de escatologia política nos limites da consequência da desindustrialização para a solução de reindustrializar por via armamentista com resquícios de Estado Natural, na perspetiva da mentalidade do político.
No computo geral da assimetria, a habituação à narrativa adianta-se ao que de facto acontece ou dissimula o que vai acontecer e assim as dissensões, na união como no Estado-membro, e.g., a operação de comunicação entre Macron e Zelensky, para a intenção de compra de cerca de uma centena de caças Rafale, à França, que será ainda fabricada, paga, provavelmente pelos cidadãos da União Europeia, porque a Ucrânia não tem dinheiro. Tão competentemente quanto estúpido, de cultura «totalitária», sem qualquer associação ao horror dos crimes contra a humanidade, leva-nos ao humanismo afetado de Adolf Eichmann, que até terá dado ordens para limitar o número de pessoas por [vagão de gado] por ser desumana a híper lotação. Trata-se de ilustrar um outro discurso do método.
No passado dia 13 de novembro, a França comemorou, 6 ataques onde massacraram 133 pessoas e feriram 413 pessoas, em Saint-Denis, em cafés e no Bataclan, a 13 de novembro de 2015. Emmanuel Macron em encenação hipócrita sobre “um sentido para o que aconteceu” nos ataques terroristas, perpetuou o ‘Il Grand Rifiuto’ da verdade, no consulado de Hollande. Em 2011, a França de Sarkozy urdiu um tratado secreto com a Turquia contra a Líbia de Muammar Kadafi, assinado por Alain Juppé e Ahmet Davutoglu, ministros da Relações Exteriores. Um plano francês apenas referido ligeiramente pela imprensa argelina como o “Plan Blue”, mas em 2012 Sarkozy desistiu. Em julho desse ano, François Hollande convoca os “Amigos do Povo Sírio”, para uma reunião com Hillary Clinton, em Paris, mas ao não cumprir com o compromisso de transferência do Curdistão para a Síria, Recep Tayyip Erdogan mobilizou os meios secretos do Estado islâmico para os aplicar em Paris. Contributos para a história do terrorismo de Estado, igualmente do lado francês reiterado pelo ex-presidente da República francesa, “O terrorismo é um veneno lento; seus efeitos se manifestam muito tempo depois dos atos horríveis que ele gera.”
E não resulta assim que a “República age no interesse (…) quando suprime uma verdade que mina a paz?” ²
Da reinvenção da pólvora; a obsessão de Macron para entrar em guerra e assim permanecer no Palácio do Eliseu, suspensas as eleições serão meios da república para a finalidade do page turner em prática política na União Europeia? Sem colagens ao epónimo, maquiavélico, que por santa ignorância e má interpretação se concetualizou, e secularizou, instrumentalizadas pelos demiurgos belicosos da Europa a expensas dos seus Povos coitados, uns crentes como ‘quakers’ na igualdade de regresso à ordem planificada.
*Com recurso à crónica de 17 de novembro revista à razão dos traços comuns dos regimes associados às repúblicas em decadência.
¹In Verdade e Política, Hannah Arendt, 1968.
²Idem.




















