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Este artigo, pensei eu, seria totalmente dedicado à Ministra da Saúde. A pior de que temos memória em Portugal. Talvez, no tempo das monarquias liberais, a Nação tenha contado com uma pessoa responsável pela saúde das portuguesas e dos portugueses com pior legado. Todavia, não encontramos registo disso.

Ana Paula Martins nasceu na Guiné-Bissau, em pleno Estado Novo, pouco tempo antes das revoltas locais incendiarem a autodeterminação daqueles povos contra o regime da ditadura em Lisboa. O seu percurso académico centra-se nas farmácias e nas farmacêuticas, com complemento em epidemiologia, quiçá útil na definição de um diagnóstico para o padrão de doenças que a governação da Spinumviva deixa por todo o território nacional. Foi assessora no governo de Cavaco Silva, bastonária da Ordem dos Farmacêuticos e presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.

O currículo é relativamente curto, mas incisivo. Acresce uma atividade particularmente viperina nos comentários que traçou às pessoas anteriormente responsáveis pela saúde, principalmente quando era bastonária e falou sobre Marta Temido, ministra que se demitiu debaixo de uma forte pressão nacional. Importa, ainda, que se dê destaque ao facto de ser guineense de nascença, porque é relevante para a análise e para reflexão acerca da hipocrisia.

Ana Paula Martins anda a fugir com o “rabo à seringa” da saúde, há demasiados meses. Perdemos a conta às declarações contraditórias, com a realidade, que foi proferindo ao longo dos meses em que desempenha aquelas funções. São demasiados erros, tratamentos infundados e displicência total para com a comunicação social que a questiona. Conseguiu ir mais longe, no mais recente episódio da trágica novela que protagoniza, escudando-se na nova narrativa do PSD do Coelho, que culpa as pessoas de outra nacionalidade por tudo e mais alguma coisa. A senhora que faleceu é que teve culpa. Afinal de contas, não era de cá. Não tinha telemóvel e não falava português. E isso significa que ela e a criança mereciam morrer, ao que parece. Nem sequer parece, na verdade, porque afinal o que a ministra disse nem era o que se tinha passado.

Sabemos, com alguma certeza, e acreditando que o mundo não acaba ainda, que Ana Paula Martins não se vai aguentar no lugar até ao final deste mandato. Há uma forte possibilidade de já ter sido despedida, quando este artigo for publicado. Demitida, entenda-se. Os ricos não são despedidos, já me esquecia.

O objetivo original do artigo era falar dela, dos seus muitos erros, da maneira como veio para enterrar o Serviço Nacional de Saúde, abrindo as portas aos amigos do Coelho e aos sócios maioritários da Spinumviva, para que se privatize a saúde e a doença e o raio que os parta.

Vinha escrever estas linhas para falar também de Leitão Amaro, homem forte do amigo Luís, que tem discursado de forma violenta sobre nacionalidades e ameaças externas. Se nos derem a ler um dos textos que o ministro da Presidência se tem esforçado por ler, sem saber que vem dele, acreditaríamos com facilidade que tinha sido preparado por um assessor de algum dos tasqueiros que para ali andam nos corredores da casa da democracia, por estes dias. É estrangeiros bandidos para um lado, é criminalidade confundida com nacionalidade para o outro, é xenofobia servida a prato do dia. É uma vergonha. Bem temperada pelo Secretário de Estado Armindo Freitas e pelo padrinho Passos Coelho, que andam com a famigerada teoria da grande substituição na ponta da língua. Teoria falsa, usada para tentar roubar eleitores no lodaçal do ódio.

Ou eles percebem, e não se importam, ou pior do que isso: nem percebem que estão é a fazer crescer o gangue das autodenominadas “pessoas de bem”. É lamentável o governo que encontramos em Lisboa. Ver Montenegro ladeado por Bolieiro e Albuquerque a apregoar um grupo de trabalho para as finanças regionais é o pior filme de terror que poderíamos desejar para o Halloween que passou. Dali, nem bons ventos, nem casamentos de qualquer espécie. No final do dia, sobreviverá apenas o empresário que se dignar a pedir consultadoria à Spinumviva. O resto, é palha para arder, que não dá votos a Lisboa.

Mas este artigo foi alterado quando tomei conhecimento da exoneração da, então, Diretora Regional da Cultura, para assumir funções numa outra pasta. A cultura ficou novamente à solta. Não é que ela se tenha feito notar ao longo dos últimos tempos. Há quem afirme não ter notado a sua presença. E muita gente, a quem possa alegadamente ter sido prometida alguma parceria, ainda devia achar que era Duarte Chaves que por lá andava. Sai pelo próprio pé, ou pé alheio, de caminho para a Direção Regional dos Assuntos Europeus e Cooperação Externa. Um cargo tão importante, que estava vazio há seis meses, sem alguém ter dado por isso. Talvez seja apropriado. Veremos.

Não será justo dizer que a cultura fica vazia. Já estava. Fica, antes, entregue à sua Secretária Regional, que nunca relevou verdadeiramente a Cultura. Em vésperas da Capital Portuguesa da Cultura, com os 50 anos da autonomia a iniciarem em janeiro e os 600 anos da descoberta dos Açores à espera, em 2027, voltamos à estaca zero. Funcionários descontentes, informados da saída da chefe pela comunicação social. Museus onde chove lá dentro e bibliotecas ao serviço da desinformação por nomeação. Arquipélagos de cultura afundados em maremotos de incompetência.

Tendo referido a aproximação de Ponta Delgada, Capital Portuguesa da Cultura 2026, cumprimento a RTP Açores pela iniciativa de trazer a terreiro a sua organização, num debate que contou com a presença da Senhora Comissária do evento, que conseguiu a proeza de, pelo menos a mim, ter suscitado mais dúvidas do que certezas. Escudou-se tanto nas burocracias e no orçamento total de 5 milhões de euros, para todo o desconhecimento em torno do evento, que me levou a questionar quais os critérios subjacentes para a sua nomeação, bem como o peso dos vencimentos, deslocações, alojamento, alimentação e ademais ajudas de custo, no orçamento total para a realização de um evento desta dimensão…de Ponta Delgada à Ribeira Grande.

De uma coisa tenho a certeza: Pedro Arruda “desmembrou” toda a narrativa que tentou fazer passar.

Voltando ao tema inicial, resta-me acrescentar que, ao contrário da Ministra da Saúde que não quer sair, e do Ministro da Presidência que não quer admitir que se vai filiar no partido do lado, a Diretora Regional caminhou para bem longe dos problemas. Não há soluções evidentes para estes desgovernos. Quem sucederá a Sandra Garcia, ainda não sei, ao momento em que escrevo. Gosto de imaginar quem sucederá a Leitão Amaro ou Ana Paula Martins. Quem eu gostaria, claro. Quem virá, na verdade, nada de bom augura. E se for como se espera, o melhor mesmo é voltarmos a velhos hábitos. Mezinhas para as maleitas feitas em casa. Fascismo na rua, resistência na sombra, censura na esquina. Cultura abandonada, trabalhada nos tempos livres, por quem corre por gosto, sem aspiração a nada mais que ser honrado quando, daqui a muitos anos, alguém lhes voltar a dar valor. É que há coisas que dificilmente mudam neste país.

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