Não é erro. O título desta crónica nada tem a ver com a distopia de Orwell, com o “Grande Irmão” ou o Ministério da Verdade. É mesmo 1989, o ano em que João Cardigos ganhou a câmara municipal da mais pequena ilha açoriana, por dois votos, o seu e, presumivelmente, o da sua companheira.
Lembro esse facto, por três razões. Desde logo porque Cardigos era médico, como agora acontece com outro candidato àquela autarquia e de um e outro terem nascido no território português do continente. Depois, porque nas eleições autárquicas todos os votos são decisivos, sobretudo em universos eleitorais de pequena dimensão, como são quase todos os das nossas ilhas – por um se perde, por um se ganha. Em terceiro lugar, e sobretudo por isso, porque o lugar de nascimento de um candidato foi pretexto para Francisco César desconsiderar politicamente quem se lhe opõe.
Vamos ao lado formal da matéria. Nenhuma lei impede uma candidatura autárquica com base no local de nascimento. Pelo contrário, até um cidadão estrangeiro recenseado em Portugal goza de capacidade eleitoral ativa (votar) e passiva (ser eleito). Será grave o deputado César desconhecer a lei.
Acreditando que Francisco sabe isso, e mais um pouco, então o caso é necessariamente grave, por se tratar de uma espécie de xenofobia, ao jeito de certo populismo que infelizmente prolifera na política nacional e que um partido democrático, como se julga ser o PS, não pode cultivar ou tão-pouco usar.
Finalmente, a profissão do candidato opositor: ter trabalho fora da política só é defeito para quem nunca teve outro modo de vida.




