Estou a ler o «Por Dentro do Chega», do jornalista Miguel Carvalho, que mergulha no submundo mais nefasto da política portuguesa para resgatar autênticos tesourinhos deprimentes e dar a conhecer as provas irrefutáveis da ascensão de uma nova escola de ditadores em potência no nosso país. É um livro acessível e escorreito, bem-apresentado e com sustentação sólida, assente na tradição em vias de extinção da investigação jornalística. Recomendo.
Trabalhos de natureza semelhante, sobre o partido de extrema-direita, foram já ensaiados ao longo dos anos, e alguns até serviram de base para esse livro. Aqui mesmo, na ilha onde resido, já se fizeram pontuais investigações sobre venenos e consequências, que talvez fossem importantes recordar em tempo de eleições. Mas isso é assunto para as urnas e para o voto em consciência. Cada povo terá o ditador que merecer.
Não me alongarei sobre a obra de Miguel Carvalho, até porque ainda não a terminei. Há um capítulo dedicado aos Açores, que tenho curiosidade em conhecer, para ver se aprendo algo de novo, e que imagino que trará as suas consequências diretas sobre o assunto. Por agora, deixo apenas breves referências à figura de Ventura, em quem muita gente vai votar, no dia 12 de outubro, mesmo não sendo ele o candidato, mas como é a figura referência aparece em todos os cartazes.
Nas eleições, sejam elas autárquicas, presidenciais, europeias ou legislativas, quem vota no chega está a votar em André Ventura. Esse facto aplica-se à quase totalidade dos votos. E o nosso arquipélago é espelho consequente dessa realidade. Em vários concelhos, os candidatos do partido nem sequer vivem naquelas ilhas, e estão indisponíveis para comentários ou campanhas. Todavia, vão ter votos. Alguns até vão ter um número considerável de votos. Porque as pessoas acreditam no Ventura. É assim que se fala pelas ruas do nosso país.
E já assim era há muito tempo, quando André começou o seu percurso, primeiro no Direito, com notas altas e uma reputação de cromo, mais tarde na vida religiosa, onde galvanizou padres extremistas e obteve um manto de radicalismo que agora carregou até aos grandes lobbies da Opus Dei, que sustentam a sua ascensão ao poder. Curiosamente, no caminho para a ditadura, surge Zita Seabra, entre tantos outros nomes. Uma antiga alegada comunista, agora transvestida de fundamentalista religiosa, que partilha vários espaços com o doutor Ventura e possivelmente outras pessoas irão trocar de casaco.
No livro de Miguel Carvalho, lemos sobre o Ventura que traçou uma estratégia para tomar o poder. Primeiro tentou na universidade e no Direito. Depois na literatura e no jornalismo. Ponderou mesmo tentar ser presidente do Benfica. E um dia convenceu um subalterno, que já o servia à época, a matar Portugal, para fazer de novo, com base na filosofia política que rege o Movimento neonazi em crescendo pelo mundo fora.
Constatamos, ainda sem ler sequer metade do livro, que Ventura sempre foi, acima de tudo, um vendedor de banha da cobra. Traiu amizades e familiares. Deixou para trás o comedimento das palavras que agradavam e apelavam ao consenso, para ocupar um espaço de cáustica destruição do sistema que ele pinta com tons de fim do mundo. É esse mesquinho ser humano que ganhou todo o palco do mundo, nas televisões, nos jornais e agora nos parlamentos da vida. E que vai em busca de fundar a ditadura de futuro para Portugal. Votem nele, e logo a veremos.
A equipa que Ventura sempre defendeu, nunca foi o Benfica. Isso só serviu de desculpa para ganhar prestígio. Em muita coisa, André fez caminho parecido com Charlie Kirk, lá fora nos Estados Desunidos. Usou da palavra para enganar e debater sem factos, que não as verdades por ele fabricadas para enganar e manipular os mais fracos. Apoiado pelos maiores grupos empresários do seu país, construiu um império de ódio e apelo à discriminação e à maldade. Refugiou-se nos seguranças e no mundo digital, onde cresceu até poder sair a público com impunidade.
Kirk acabou assassinado. Ao que tudo indica, pelo próprio movimento que ajudou a construir. Ninguém merece morrer. É o que eu penso. Mas isso não fará com que eu celebre a sua morte. Todavia, faz com que eu repudie, totalmente, o que se passa atualmente daquele lado do mundo, e que se apoia nessa morte.
Com armas e repressão, o governo de Trump avança para a fase final da implantação da sua ditadura fascista. Qualquer tentativa para enfrentar o ditador é assumida como dissidência ideológica e respondida com violência e opressão. Foram já muitas centenas, senão mesmo milhares de pessoas que perderam o seu emprego por causa disto tudo. Entre elas, o famoso comediante Stephen Colbert. Jimmy Kimmel, outro afamado apresentador e humorista, por pouco não sofreu o mesmo destino, tendo sido salvo por um movimento popular, mas ficando com a espada de Dámocles pendurada por cima da cabeça.
Para finalizar o controlo absoluto do seu país, Trump declarou que a filosofia política conhecida como «Antifa» deveria ser encarada como sendo terrorista pelas autoridades dos Estados Unidos. Antifa é umaabreviatura de Anti-Fascismo. Não me parece necessário dizer mais sobre este assunto. Quem quer acabar com os que combatem o fascismo, é fascista, como deveria ser evidente para todas as pessoas do mundo.
Por cá, André Ventura, candidato absolutista, discursou em Espanha, defendendo Charlie Kirk, profeta da ideologia neonazi e do fascismo americano. Disse que não se esqueceria dele, tal como no passado e no presente continua a defender Trump e Bolsonaro, cujos apoiantes são essenciais no financiamento do Chega, conforme o atesta Miguel Carvalho. Tudo isto está ligado. Eles defendem-se e querem prender todos os seus adversários. Mais claro, era impossível. Quando fores às urnas, votar em André Ventura, não te esqueças disso. Ninguém tem desculpa para dizer que não sabia.




