André Ventura confirmou que será candidato às eleições presidenciais de 2026, pelo Chega, assumindo assim a intenção de propalar o seu discurso e atenção mediática, novamente, ao máximo. Ventura diz ter o objetivo de ir à segunda volta contra Gouveia e Melo, num confronto que define ser entre o sistema e aqueles que estão contra ele. A questão principal deste artigo não tem a ver com os candidatos, mas com tudo aquilo que Ventura representa para Portugal.
Esta promessa revela, a meu ver, um conjunto de tensões fortes, entre alguém que está, na perspetiva dele acomodado e imiscuído no atual sistema democrático (negativo segundo Ventura) e alguém que vem de fora do sistema, numa polarização entre um “ser comum” e alguém de uma elite política, entre alguém que pretende dar voz aos descontentes e aqueles que, segundo Ventura, servem o sistema ao mesmo tempo que se servem dele. Mas será mesmo este o caminho que queremos?
Uma democracia saudável baseia-se em alguns pilares que se tornam críticos face ao que está a emergir. Uma democracia vive de pluralismo, de instituições fortes e independentes, de um debate baseado em factos e de uma cidadania informada. Quando alguém constrói a sua identidade política contra o “sistema”, apresenta-se como outsider e atribui-se a si mesmo uma espécie de pureza moral automática, enquanto relega todos os outros para o campo dos suspeitos, dos comprometidos, dos culpados. Essa estratégia fragiliza as instituições, porque instala, de forma inevitável, a ideia de que elas são corruptas, quando o verdadeiro papel da cidadania deveria ser o de as criticar para melhorar, não para destruir.
A candidatura de Ventura sinaliza que uma parte significativa da sociedade portuguesa já se revê neste discurso. Ele não quer apenas competir, quer confrontar. Não quer apenas participar, quer provar que a política “de fora” tem de se impor à política tradicional. Para muitos eleitores descontentes, este tom é sedutor, porque apela diretamente à frustração e à indignação. Mas é precisamente aí que residem os maiores riscos.
A polarização extrema é um deles, a democracia precisa de compromisso, negociação e respeito pelo adversário, mas a lógica do “nós contra eles” transforma o opositor em inimigo, reduzindo o espaço para o diálogo. Outro risco é o populismo de soluções fáceis. Quanto mais complexos os problemas, mais simplificadas são as respostas, vendidas em slogans e promessas que raramente sobrevivem à prova da realidade. A confiança nas instituições também se desgasta. Se tudo o que vem do “sistema” é suspeito, porque devemos acreditar na justiça, na imprensa ou no parlamento? Por fim, os direitos e liberdades correm o perigo de ser relativizados em nome de um combate contra o “inimigo interno”, criando assim um terreno fértil para abusos de poder.
E, no entanto, as sondagens parecem confirmar que este discurso tem força. Estamos dispostos a aceitar que a indignação se torne programa político? Que a radicalização seja confundida com autenticidade? Que a democracia se reduza a uma luta de ressentimentos, onde os problemas reais ficam em segundo plano perante a encenação permanente da luta “sistema vs antissistema”?
Portugal atravessa um momento de crise de confiança e esse sentimento é legítimo. Muitos cidadãos sentem-se excluídos, abandonados, esquecidos. Mas a resposta não pode ser a destruição das bases democráticas. “Antissistema”, não pode significar ser antidemocrático. Se ceder a essa tentação, o país arrisca-se a ficar dividido, mais pobre de diálogo, menos livre e mais vulnerável a líderes que trocam soluções concretas por discursos de raiva.
A verdadeira pergunta não é se Ventura chega à segunda volta ou não. A verdadeira pergunta é que democracia queremos para nós e para o futuro, uma democracia que se alimenta de rancor, de ódio ou uma democracia que, apesar dos erros, se renova a partir das suas instituições, do diálogo e da participação cívica. Porque aquilo que se perde em liberdade, confiança e pluralidade, dificilmente volta a ser recuperado.




