França voltou a mergulhar numa crise política profunda com a queda do governo de François Bayrou, apenas oito meses depois de ter tomado posse. Convém relembrar que este já é o quinto primeiro-ministro francês em outros tantos anos.
Este padrão de instabilidade não é apenas um fenómeno isolado nem meramente doméstico, no que concerne ao contexto político. Trata-se sim de um problema que tem, por exemplo, consequências diretas para Portugal e também para a União Europeia. Afinal, França é o principal empregador estrangeiro dos portugueses e um dos parceiros comerciais mais relevantes do nosso país, pelo que as suas turbulências internas têm sempre reflexos no exterior.
A sucessão de governos de curta duração mina a confiança dos mercados, mina a confiança das empresas e também acaba por minar a confiança dos eleitores na classe política. No que envolve diretamente Portugal, milhares de emigrantes que trabalham em França podem sentir na pele as repercussões da indefinição política. Empresas a adiar investimentos, setores como é o caso da construção, a hotelaria ou outros, a travar contratações e uma política orçamental indefinida a afetar a instabilidade económica de quem ali pretende construir o seu futuro.
Acresce ainda o facto de que a economia francesa já vem dando sinais de fraqueza há algum tempo, com um crescimento “anémico” e um défice público acima do normal. Estes fatores contribuem, inegavelmente para a instabilidade política mas também se agravam com a ausência de uma liderança firme e com uma linha de atuação que garanta alguma previsibilidade de ação.
Para Portugal, isto significa um risco acrescido também ao nível das exportações. França é um mercado central para a indústria nacional. Se a instabilidade levar à retração das importações ou ao atraso em programas de investimento, as empresas portuguesas irão sentir, de forma inevitável, o impacto. A ligação entre as duas economias é demasiado estreita para que se possa olhar para esta crise em Paris como algo distante ou sem relevância prática.
Importa dizer que as consequências não se irão limitar ao plano bilateral. França é uma das principais economias da zona euro e, portanto, um dos pilares da integração e da coesão europeia. Um país que deveria liderar debates cruciais sobre a política da defesa, sobre a transição energética, ou sobre a coesão interna, encontra-se agora paralisado por confrontos políticos e pela dificuldade em construir maiorias estáveis. Esta fragilidade repercute-se no conjunto da União Europeia, e fragiliza a sua voz num momento em que enfrentamos desafios externos severos.
No final de contas, a crise francesa não é apenas um problema francês. É um sintoma de uma Europa a braços com dificuldades em assegurar estabilidade política duradoura e em responder, com solidez, às exigências de um tempo repleto de incertezas. O que acontece em Paris, tem repercussões inevitáveis em Lisboa, e quanto mais frágil estiver França, mais vulnerável estará também a União Europeia e, por consequência, Portugal.




