Como qualquer proto-ditador, Trump vai tentando controlar tudo o que existe à sua volta – não se fica pelo domínio económico, o controlo da imigração e uma certa supremacia nas relações internacionais assente no poderio militar – sabe que o controlo político e cultural dos Estados Unidos é determinante para o seu sucesso unipessoal. A sua última tentação é redesenhar os círculos eleitorais para a Câmara dos Representantes, para desse modo perpetuar a vitória republicana onde habitualmente ela lhe escapa.
A história lembra-nos que grandes líderes autocráticos chegaram ao poder através de eleições livres e nele se mantiveram mudando por dentro as regras do sistema.
O caminho não é novo. Recorro mais uma vez à história, sem necessidade de ir longe no espaço e no tempo. Na fase final da monarquia portuguesa, quando o movimento republicano ganhava forma e expressão eleitoral e o rotativismo estava condenado ao insucesso, regeneradores e progressistas trataram de reconfigurar os círculos eleitorais, sobretudo nas maiores cidades, onde a vitória republicana ameaçava. A artimanha foi o mais longe possível, agrupando zonas geograficamente descontínuas, por forma a que a soma dos votos monárquicos superasse sempre a dos opositores.
Nos Açores, a criação de um círculo regional de compensação, contribuindo para corrigir assimetrias de escala entre as ilhas, teve a intenção de reduzir a representação relativa do então maior partido a oposição. O objetivo foi sendo cumprido em muitas eleições, para gaudio do autor… até o criador ter sido canibalizado pela criatura.




