A propósito do Editorial do DI: a espécie cinegética mais abundante nos Açores era o coelho bravo. Presentemente, esta espécie só existe numa densidade razoável (embora distribuída assimetricamente no interior destas ilhas) nas ilhas de São Miguel e do Faial. Nas restantes seis ilhas tem uma densidade muito fraca e, no Corvo, a espécie está extinta. A virose hemorrágica nos coelhos foi madrasta para os Açores.
No passado, esta espécie cinegética representava um enorme potencial para o turismo cinegético, mas nunca foi aproveitado. Sendo assim, presentemente não existe potencial turístico para a caça ao coelho bravo.
Quanto às aves de arribação que se podem caçar nos Açores, as espécies de patos e narcejas que arribam no arquipélago são muito inconstantes e não têm expressão que justifique um turismo cinegético.
Restam os pombos-das-rochas. Aqui sim, existe densidade bastante e a espécie está em expansão. Resta saber se existe procura para uma espécie desta natureza, e que está erradamente associada a um produto gastronómico de baixo valor. E digo erradamente porque, com esta espécie, se podem confecionar excelentes pratos.

A outra espécie cinegética que se pode caçar na atualidade nos Açores são as codornizes. Outrora abundantes, no tempo do ciclo económico do trigo, hoje a sua densidade está muito reduzida devido ao tipo de agricultura que se pratica no arquipélago, em que o grão cedeu espaço e importância a favor da erva. Neste cenário, o turismo cinegético a esta espécie selvagem, a Coturnix coturnix conturbans, não se justifica, até porque atualmente o período de caça é muito limitado.
Finalmente, temos a espécie nobre e rica da caça em algumas ilhas dos Açores: a nossa galinhola (Scolopax rusticola). Nos Açores é sedentária, isto é, não é uma ave de arribação, estando muito ligada às nossas plantas endémicas, aos musgos e a um habitat húmido. Esta espécie está muito ameaçada pela mudança do habitat e pela alteração do clima. É, pois, uma espécie que requer um acompanhamento científico rigoroso e medidas de controlo apertadas, sob pena de perdermos este tesouro que é a galinhola dos Açores.
Neste sentido, o turismo cinegético a esta espécie rica e fantástica, que existe em algumas ilhas do arquipélago, teria de ser muito bem pensado. Não tenho dúvidas de que representaria uma ameaça extrema à sustentabilidade da galinhola dos Açores, que não é de arribação e não se reproduz em cativeiro.
Em síntese, o turismo cinegético, presentemente, nos Açores só se justifica para os pombos-das-rochas. Resta saber se existe procura e se este caçador desta espécie interessa aos Açores.
Atenção: eu estou a falar em caça selvagem e não em “caça” intensiva, sempre ligada à reprodução em cativeiro.




