O organismo nacional que investiga acidentes aéreos sugere à ANA – Aeroportos de Portugal que reavalie os métodos de deteção de aves no Aeroporto de Ponta Delgada, nos Açores, após um A320 da SATA colidir com um bando de gaivotas.
A sugestão consta do boletim trimestral hoje divulgado pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), a que a agência Lusa teve acesso, na parte em que analisa o incidente, ocorrido às 14:48 de 02 de janeiro, quando a aeronave colidiu com “várias gaivotas” (‘bird strike’) durante a descolagem do Aeroporto João Paulo II, na ilha de São Miguel, com destino a Lisboa.
A tripulação declarou emergência e solicitou “aterragem imediata”, reportando problemas de vibração nos dois motores, e aterrou em segurança em Ponta Delgada às 15:00, 12 minutos depois do ‘bird strike’.
“Após análise das medidas de contenção e dissuasão em vigor no aeródromo, embora estas sigam um conjunto de práticas recomendadas, as mesmas aparentam estar dependentes de um sistema totalmente manual para identificação da presença de aves no aeródromo para que sejam iniciados ou efetivados os procedimentos de mitigação de dispersão disponíveis”, aponta o GPIAAF.
Este organismo adverte ainda que, quanto aos procedimentos de gestão do tráfego aéreo pela NAV Portugal relativamente à identificação de presença de aves na pista, “foi possível constatar que existem áreas não visíveis da posição do controlador de tráfego aéreo pela presença de um edifício (hangar) localizado entre a torre e a pista”.
O gabinete concluiu que os meios visuais adicionais ao dispor dos controladores aéreos (sistema de CCTV – Circuito Fechado de Televisão) “não garantem uma visualização efetiva da extensão de toda a pista”.
Tendo em conta esta limitação e outros fatores que influenciam a operação aérea em Ponta Delgada, o GPIAAF sugeriu à ANA, gestora aeroportuária, que reveja e reavalie os métodos de deteção de aves.
“Atendendo à localização, ao número de movimentos de aeronaves, às condições meteorológicas, e considerando ainda o ponto de observação do prestador de serviços de navegação aérea para validar a condição da pista antes da autorização de aterragem/descolagem, foi sugerido ao operador aeroportuário uma reavaliação dos métodos de deteção de aves como percursor e base de todos os procedimentos de mitigação em vigor”, lê-se no boletim trimestral.
O GPIAAF lembra que as soluções tecnológicas disponíveis no mercado para dispersão de aves “vão emergindo ao longo dos anos e cabe aos diferentes intervenientes a necessária adaptação e evolução no processo de mitigação dos riscos”, sugerindo várias soluções.
“Desta forma, cabe aos gestores aeroportuários a definição de medidas mitigadoras, sendo o respetivo seguimento, avaliação de eficácia e aprovação de ações de contenção adicionais da responsabilidade da autoridade de certificação das infraestruturas, a ANAC [Autoridade Nacional de Aviação Civil]” frisa.
O GPIAAF não considera haver necessidade de abrir um processo de formal investigação ao evento, limitando-se a uma avaliação com a emissão de propostas de prevenção.
A Lusa noticiou o incidente em 06 de janeiro e, nesse dia, questionou a ANA e a ANAC sobre o plano de segurança, o edifício em frente à torre de controlo e que medidas estão implementadas em Ponta Delgada para mitigar o risco de ‘bird strikes’.
A gestora aeroportuária respondeu dispor dos meios recomendados para a gestão da avifauna nos seus aeroportos, acrescentando que também “são acionadas medidas de proteção ativa sempre que solicitado pelo controlo de tráfego aéreo”, e deu ainda conta de que “o aeroporto desencadeou no imediato uma análise para apurar as circunstâncias do incidente”.
A ANAC disse estar a analisar o incidente, admitindo a tomada de “ações em conformidade” e que o aeroporto dispõe de sistema de gestão de vida selvagem. A autoridade reconheceu que a torre de controlo “tem efetivamente vista condicionada para a área de manobra, mas dispõe “de outros procedimentos alternativos implementados”, referindo-se ao sistema CCTV.