D.Armando Esteves Domingues pediu superação da cultura individualista seguindo a espiritualidade “nascida do senhor Santo Cristo”.

O Bispo de Angra convidou hoje os peregrinos das celebrações do Senhor Santo Cristo dos Milagres, na ilha açoriana de São Miguel, a superar uma cultura individualista, elogiando a religiosidade dos que vivem no arquipélago e na diáspora.

“A coesão social depende muito dos bons ou maus vizinhos, dos olhares atentos ou alheios. Mais ainda, no essencial trata-se de amadurecer uma diversa visão antropológica já inscrita na humanidade de Cristo: passar de um eu individual e egoísta, tendencialmente fratricida ou pronto a dizer mal, a um eu inclusivo e hospitaleiro; sair de um modo de viver concentrado sobre si mesmo, para criar espaço dentro de si para o outro”, afirmou D. Armando Esteves, na homilia da Missa a que presidiu no campo de São Francisco.

“Há muitos esforços de quem serve o bem comum e quer encontrar soluções, mas precisamos de uma inspiração e rumos novos ditados pelo Espírito Santo que nos envolvam a todos no serviço de proximidade a quem necessita”, disse ainda.

As Festas do Senhor Santo Cristo mobilizam milhares de pessoas, entre micaelenses, emigrantes e devotos do resto da região autónoma e do país.

“O seu primeiro milagre, do Senhor Jesus aqui representado, a quem chamamos com tanto carinho o nosso Santo Cristo, é precisamente esta comunhão planetária proporcionada pelos meios de comunicação social – digitais ou mesmo nas redes – que fazem de nós uma sinfonia de irmãos, todos ligados a este nosso belo arquipélago dos Açores”, indicou o bispo de Angra, que presidiu a estas celebrações pela primeira vez.

“Há na espiritualidade nascida aqui, das dores e cruz do Senhor Santo Cristo, um fio de ouro que une todos os seres e todas as coisas criadas”, assinalou o responsável católico que centrou a reflexão no tema das celebrações em 2023, ‘Jovem, eu te ordeno: levanta-te!’, sublinhando que Jesus “pode tirar esperança do desespero e vida da morte”.

O bispo de Angra disse que esta espiritualidade abre “um coração novo e olhos novos”, que contrariam a “filosofia do sucesso e da eficiência, que obriga à competição permanente, a uma lógica que exclui e mata, mata todo o diferente e não produtivo”.

“O Ecce homo aponta uma ética do infinito de que faz parte a aceitação do limite em vez de uma filosofia do sucesso e da eficiência que obriga à competição permanente, a uma lógica que exclui e mata o diferente e não produtivo” e favorece a “desumanização”.

“A cultura que manda ir além do limite esquece que, aí não há perfeição, mas antes desumanização”, advertiu.

“O povo açoriano deixou que desta imagem irradiasse um amor contagiante, uma esperança de vida feliz, mesmo nos sacrifícios, uma luz que leva a ver o sofrimento como graça e não castigo. E isto contempla-se no rosto do Senhor, vê-se espelhado no olhar, atitude, respeito de quantos silenciosamente o olham e se deixam olhar”.

“Há na espiritualidade nascida do Senhor Santo Cristo, suas dores e cruz, um fio de ouro que une todos os seres e todas as coisas entre si! A vida cristã antes ainda de ser uma missão é um modo de ser e viver à maneira de Deus, à maneira da Trindade, que nos dá um coração novo e olhos novos, uma maneira diversa de ver as coisas, uma intelectualidade que vai para além do raciocínio: é preciso ser o Amor, em Jesus, para encontrar esse fio de ouro que tudo une” disse ainda.

D. Armando Esteves saudou, em particular, os açorianos da diáspora, que “levam consigo a sua fé e fazem nascer as mesmas tradições, onde vivem, levam uma boa notícia”.

No final da Eucaristia, o bispo de Angra voltou a dirigir-se à multidão: “Convoco-vos, nesta bênção final, a continuarmos a ser testemunhas desta bela Igreja de Jesus Cristo”.

O responsável católico assinalou o primeiro dia da Semana da Vida, repetindo o lamento com a aprovação da lei da eutanásia, que o Papa deixou este sábado, antes de afirmar que “só quer morrer aquele a quem não se dá a alegria de viver”.

“No coração, não deixo de levar o desafio à defesa e construção da vida, em cada pessoa, não abstrata, em cada vizinho, em cada amigou ou inimigo, em cada um onde a vida parece menos. Não podemos permitir que um comprimido nos substitua”.

O Reitor do Santuário, por seu lado, afirmou que o coração e os olhares de todos os devotos estão fixos no Ecce Homo, o “Senhor da Ternura e da bondade, que conhece o mais intimo da nossa alma e sabe bem porque estamos aqui”.

“Sabe dos nossos desejos e anseios, das nossas tristezas e alegrias. Conhece o sabor salgado de cada uma das nossas lágrimas. Mas, aqui junto do seu santuário cabem todas e nenhuma delas é perdida porque caem sempre no colo do Senhor”, disse o cónego Adriano Borges.

Esta tarde, realiza-se a Procissão Solene, pelas principais artérias de Ponta Delgada, que a esta hora já estão cobertas por tapetes de flores naturais cuja concepção envolve centenas de pessoas ao longo de um percurso que demora quatro horas.

O percurso passa pelos antigos conventos da cidade e algumas igrejas paroquiais, percorrendo ruas cobertas de tapetes de flores; em 2023, a imagem sai à rua com uma capa oferecida pela Irmandade do Senhor Santo Cristo de Brampton, no Canadá.

A imagem foi oferecida por Paulo III (Papa entre 1534 e 1549) ao primeiro grupo de religiosas Clarissas que quis fundar um convento em São Miguel, tendo-se deslocado a Roma para pedir a respetiva autorização.

Esta manha, a Imagem regressou ao Campo depois de ter estado em Vigília de Oração durante toda a noite na Igreja de São José. Foi acolhida pelo canto do Grupo Coral de Santa Catarina, da ilha do Fail, dirigido pelo padre Marco Luciano Carvalho, ouvidor da Horta. Este ano a filarmónica convidada para estas festas e que acompanhará a Imagem do Senhor Santo Cristo durante toda a procissão vem das Flores e junta-se assim a mais de uma dezena de filarmónicas de toda a ilha de São Miguel.

No final da procissão a Imagem é devolvida de novo na `Porta Regral´ do Convento da Esperança às Irmãs contemplativas do Bom Pastor, que zela por este culto atualmente nos Açores.

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