Mário Soares dividiu sempre as pessoas pelo caráter e pela coragem

Pacheco Pereira

O antigo dirigente social-democrata Pacheco Pereira defendeu hoje que Mário Soares dividiu sempre as pessoas pelo caráter e coragem, enquanto o fundador do BE Fernando Rosas salientou a “combinação republicana radical e marxista” do fundador do PS.

Estas posições foram assumidas pelos dois historiadores na primeira das quatro conferências promovidas pelo PS dedicadas ao percurso político do antigo Presidente da República e primeiro líder do PS, Mário Soares, na qual também participou o professor universitário Mário Mesquita, antigo militante da Ação Socialista Portuguesa (ASP) na década de 60.

A primeira conferência, dedicada ao percurso de Mário Soares como resistente à ditadura do Estado Novo, foi aberta pelo presidente do PS, Carlos César, que salientou o contributo de Mário Soares “na luta contra a opressão” até ao 25 de Abril de 1974, na consolidação da democracia pluralista e, depois, na adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia.

Fernando Rosas

Fernando Rosas, na sua intervenção, sustentou a tese de que o fundador e primeiro líder do PS foi um político que combinou uma dupla tradição: A do republicanismo radical, reviralhista; e a das novas correntes marxistas/neorrealistas de meados do século XX.

Após uma breve referência ao período de militância de Soares no PCP entre 1943 e 1953, Fernando Rosas sustentou que uma das ideias centrais do futuro fundador do PS em 1973 passou a ser a de impedir “uma espécie de tutela” dos comunistas em relação à restante oposição ao Estado Novo.

“No início da década de 60, Mário Soares tornou-se o líder de facto da oposição não comunista. A ASP tinha já uma rede nacional”, apontou o historiador e antigo deputado do Bloco de Esquerda, com Pacheco Pereira a destacar depois “o enorme pragmatismo” inerente à ação política do primeiro líder dos socialistas portugueses, equiparando-o nesta caraterística aos antigos presidente francês François Mitterrand e chanceler germânico Willy Brandt.

Além da “grande objetividade” inerente à atuação política de Soares, Pacheco Pereira defendeu também que, numa época difícil do ponto de vista pessoal para os resistentes ao Estado Novo, o antigo Presidente da República foi igualmente moldado por outro princípio ético-moral “hoje bem menos comum”.

“Até ao fim da sua vida Mário Soares dividiu as pessoas pelo caráter e pela coragem”, disse, considerando, ainda, que o fundador do PS e antigo militante do PCP “nunca deixou de ser aquilo que tinha sido” no seu passado.

Pacheco Pereira contou então episódios que partilhou com Mário Soares em Moscovo, na década de 90, já quando tinha deixado de ser Presidente da República.

“Quis ir visitar o túmulo de Lenine, o que não conseguiu por estar nesse dia reservado para uma delegação vietnamita. Mas conseguiu visitar o museu da revolução”, contou.

O antigo dirigente social-democrata falou também da relação que Mário Soares teve com os jovens dos movimentos esquerdistas na sua fase de exílio em Paris no início da década de 70.

“Manteve com os esquerdistas que contactou uma relação pessoal boa, até porque percebia que estava aí uma das fragilidades do PCP, sobretudo entre a juventude universitária”, defendeu.