Gualter Furtado: O Natal Açoriano

O meu Natal é o Natal Açoriano.

De todas as vivências que marcaram a minha juventude nas Furnas e em Ponta Delgada a única que não conservo é a matança do porco. É um Natal em que o núcleo principal da família está presente e os que estão ausentes é porque a sua condição de emigrantes não permitem a sua presença ou porque a rotatividade com as famílias dos cônjuges impõe esta solução. É uma época em que a gastronomia cinegética impera, já que a consoada coincide com o fim do outono que é a época forte da caça, e em casa de caçadores o que se cobra é tudo aproveitado em pratos variados tendo por base o coelho bravo, os pombos da rocha, as galinholas, e as codornizes, então estas fazem parte de uma tradição que já atravessou alguns séculos na família.

Mas o Natal é também a época de eleição dos citrinos em especial das tangerinas que eu teimo em cultivar, mas é também o tempo das anonas e dos inhames que têm lugar cativo no meu quintal.

Natal sem presépio e uma árvore enfeitada a preceito não é Natal. O presépio tem de ser construído com musgo e com figurinhas de barro e da Lagoa.

Natal é um momento em que a força da partilha mais se acentua, não só em relação aos mais próximos, mas também incluindo os amigos e os que mais necessitam. Embora esta solidariedade devesse ser manifestada todos os dias.

Natal é o recordar com muita saudade dos familiares e amigos que já não estão no mundo dos vivos e que tanta falta nos fazem.

Natal é reconhecer que sozinhos não somos capazes de garantir a sustentabilidade da organização em que trabalhamos ou do espaço em que vivemos, mas juntos isto já é possível.

Natal é ir beber um copo de água azeda e ter o privilégio, mesmo que breve, de percorrer o presépio nas caldeiras das Furnas.

É este o meu Natal e que, lucidamente, gostaria de viver até ao fim.

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