Gualter Furtado: Fogos: uma tragédia anunciada

O que se tem passado nos últimos tempos, e as consequências dos fogos no Continente Português, é mau de mais para ser verdade. As mortes e os danos patrimoniais, são incalculáveis, mas são o resultado de uma tragédia anunciada, já que as brutais mudanças climáticas que estão a ocorrer no nosso planeta com o aquecimento global são uma realidade e fruto do desenvolvimento de projetos e comportamentos de desrespeito pela natureza em todo o mundo.

Ora isto é um fator chave para o início e alastramento dos fogos. Acresce que a falta de ordenamento no território, o abandono de extensas áreas de terras em grande parte impulsionado por milhares e milhares de emigrantes que saíram do país com especial relevância a partir da década de 50 do século passado, com aqueles campos desprezados e com mato até ás bermas das estradas e das casas, a que se junta a opção por espécies florestais nem sempre as mais adequadas, são o rastilho que alimenta esta tragédia Nacional.

Não menos relevante é a realidade de que, nos dias de hoje, os pequenos proprietários de matas verem o preço da madeira cada vez mais barata e uma brutal burocracia para as autorizações dos cortes da madeira, quando não são mesmo impedidos de a cortar por diversas condicionantes que não existiam quando estes proprietários decidiram optar pela plantação destas matas, o que objetivamente são mais fatores a aumentar o abandono e o desleixo.

Como se isto tudo não bastasse temos o espetáculo lamentável de amadorismo e descoordenação entre as diversas entidades no combate aos incêndios. São os próprios atores que o reconhecem em debates e espetáculos televisivos infindáveis.

Portugal sempre foi um país de capelinhas e enquanto isto não acabar e não houver uma coordenação efetiva entre todas estas entidades, sejam públicas ou privadas ou profissionais ou voluntárias, vamos continuar a assistir a tragédias como as que ocorreram e certamente vão continuar a existir, porque a solução deste desafio é estrutural e transversal e é o retrato fiel do país.

E nos Açores? Por cá e como em quase tudo somos e estamos melhor do que no Continente, mas o nosso principal aliado é o nosso clima e o Anticiclone dos Açores. Mas também é verdade que temos dezenas de situações de matas ao abandono, por desbastar, por limpar, nalguns casos de emigrantes que receberam este património de herança e quem sofre as consequências são os desgraçados dos vizinhos. Sendo que objetivamente também por cá não estamos imunes a tragédias provocadas por fortes chuvadas e outras catástrofes naturais.

Este tema, também por cá, merece reflexão e, se não ocorrer, certamente teremos também as nossas tragédias anunciadas.

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