Zuraida Soares: As trapalhadas do costume

Foi com alguma estupefação que assisti às declarações do Sr. presidente do Governo Regional, sobre a Base das Lajes, a desmentir o Sr. ministro dos Negócios Estrangeiros.

O ministro afirmou, na Assembleia da República, que o documento do Orçamento de Estado norte-americano propunha a realização de um estudo com o objetivo de encontrar outras utilizações para a Base das Lajes. De imediato, Vasco Cordeiro veio desmentir o ministro, e dizer que essa recomendação – embora constasse em propostas – não foi aprovada.

Como podemos aquilatar, sem necessidade de grande profundidade de análise, haver uma recomendação, ou não, no orçamento americano, não atrasa nem adianta qualquer coisa para os Açores. O que é importante é perceber porque teve o presidente do Governo Regional necessidade de desmentir o ministro.

Em artigo anterior, coloquei em causa a desculpa de Vasco Cordeiro por não ter sido discutida,  na reunião bilateral de junho, a questão da descontaminação dos terrenos da Praia da Vitória. Como defendi, esta questão apenas não foi discutida por opção política do ministro dos Negócios Estrangeiros.

E, tudo isto, porquê?

Os mais altos dirigentes do PS/Açores, como Vasco Cordeiro, Carlos César, Sérgio Ávila, acompanhados pelo PSD e CDS dos Açores defendem, por razões ideológicas, que a NATO e os norte-americanos devem ter uma base nos Açores, seja ela, o que quer que seja.

Desta maneira, mostramos a nossa utilidade aos patrões do mundo.

Acontece que este pensamento de empenhamento na NATO corresponde ao pensamento do PS, PSD e CDS no continente, e tudo isto embrulhado no discurso da necessidade de protecção e segurança de todos/as nós.

Como é óbvio, qualquer pensamento lúcido, no actual contexto mundial, demonstra precisamente o contrário: no que diz respeito à segurança, os Açores têm tudo a ganhar se largarem as empreitadas militares e pensarem na sua economia.

O mais patético desta situação, é que, apesar de ser a própria administração norte-americana – não só a atual, mas também com Obama – a assumir a falta de interesse nos Açores para fins militares – por razões geoestrastégicas derivadas da evolução económica do mundo, devido à gigantesca revolução tecnológica no campo militar, entre outras razões – é o governo de Portugal e o governo dos Açores que andam a pedir ao “Senhor”.

Como andamos de mão estendida, perdemos o poder de reivindicar a descontaminação dos solos.

Chegados aqui, todos percebemos que o presidente do Governo Regional já não tem mais desculpas para apresentar aos Açorianos/as, e precisa de fazer alguma coisa para não vir, mais uma vez, com as mãos a abanar da cimeira de Dezembro.

Por mim, neste assunto, até apoio o Sr. presidente, mas quem pôs os interesses dos Açores em último lugar, foi o Governo Regional.

O Sr. presidente sabia que a utilização do porto da Praia da Vitória como porto civil internacional era incompatível com a utilização militar de porte elevado, que a criação de um centro de lançamento de satélites na Terceira era incompatível – como foi tecnicamente provado – com a utilização militar do aeroporto das Lajes, e que o AIR Center não passa de uma nuvem de fumo para nos tentar entreter, apesar de já estar à vista de todos que a montanha pariu um rato.

Esta postura do Governo Regional perante o Governo da República, no que diz respeito à Base das Lajes, só faz sentido se tiver consequências para o futuro. Isto é, se o Governo Regional começar a pôr os interesses dos Açores em primeiro lugar, e se deixar de quixotismos militares que, esses sim, podem pôr a nossa segurança em causa.

Se for este o caso, terá, obviamente, o nosso apoio.

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