Anibal Pires: Tradições

Ainda faltam uns dias, semanas mesmo, mas o espaço já está imbuído de apelos e o ambiente festivo transparece dos rostos e comportamentos. Não há nada a fazer, ou nos integramos no espírito da coisa, ou somos olhados como marginais que não respeitam a ordem instituída. Cá por mim o papel de ovelha tresmalhada assenta-me bem e, agora que já tenho os filhos crescidinhos e como não estão por perto, nem sequer tenho de elaborar as habituais desconstruções para justificar porque não me quero submeter ao calendário comercial, embora o total alheamento a essa realidade seja uma impossibilidade.

Não há como fugir ao espírito desta quadra festiva, ou pelo menos não a ter em consideração e referenciar. Este texto é o exemplo acabado do que acabei de afirmar, embora não se trate de uma rendição ao mercantilismo que lhe está associado.

Até gosto de alguns aspetos ligados às comemorações do Natal e à passagem para um Novo Ano. Gosto dos momentos de reunião da família e dos amigos, gosto dos madeiros a arder nos adros das igrejas nas aldeias, vilas e cidades da Beira Baixa, gosto do cantar às janeiras e às estrelas e, pouco mais. O que já não é pouco para quem, como eu, não necessita de muito para se sentir bem com os outros e consigo mesmo.

O princípio destas celebrações, como de muitas outras, tem as suas origens nos ciclos naturais e, é na sua génese que eu encontro motivos para comemorar. A natividade é uma festa de todos os dias, o Solstício de Inverno acontece uma vez por ano. O que celebramos por esta altura do ano, no hemisfério Norte, tem as suas raízes nas tradições pagãs ligadas ao Solstício de Inverno e aos deuses de diferentes mitologias e crenças, mas sobretudo ao Sol pois, é a partir do dia em que a noite é mais longa que a luz natural volta gradualmente a aumentar a sua duração até ao Solstício de Verão.

A expansão da cristianização e dos cultos que foram sendo construídos ao longo dos primeiros séculos da nossa era (era cristã) resultaram na imposição aos povos de uma ideia monoteísta de religião, um só Deus. Os cultos politeístas do Solstício de Inverno manifestavam-se por diferentes formas, conforme a geografia, mas não sendo compatíveis com o objetivo e doutrina das igrejas cristãs foram, paulatinamente, substituídos pelas celebrações do nascimento de Jesus Cristo.

Nada disto é novidade e o mesmo sucedeu com outras celebrações pagãs ligadas aos ciclos naturais. Não é tanto o reconhecimento destes factos que me perturbam, pois, os povos na sua imensa sabedoria e capacidade de resistir mesclaram os ancestrais rituais com os que lhe foram impostos pelo culto dominante. O que verdadeiramente me preocupa é esta nova e avassaladora imposição comercial que tudo desvirtua e contra a qual parece não haver, pelos povos, nem a sabedoria, nem a capacidade de resistência que lhe faça frente. E todos perdemos com isso, desde logo a Igreja católica. O Papa Francisco, em 2015, veio a terreiro dar conta disso mesmo.

Como sou pelas tradições, sem que nada tenha a opor à evolução dos costumes e à modernidade, celebro o Natal pelo Solstício de Inverno.

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