Aníbal Pires: Sinais do tempo ou do mercado

Não deixa de ser interessante embora dramático observar, por um lado o comportamento passivo da generalidade dos cidadãos, todos potenciais clientes/utentes, dos trabalhadores que nem sempre têm consciência que mais tarde ou mais cedo o cenário não será o que lhes desenharam, mas é, sobretudo, o comportamento ativo, mas contraditório, de alguns protagonistas e decisores políticos quando são anunciadas privatizações de empresas públicas e os elogios que tecem à decisão. As privatizações são aceites sem grandes reservas e em muitos casos até aplaudidas pois, daí espera-se maior eficiência e até a diminuição dos custos do serviço prestado, Nada de mais errado como o tempo tem vindo a demonstrar.

A privatização dos CTT é, talvez, o caso mais paradigmático. A qualidade do serviço diminuiu, as queixas dos clientes são mais que muitas e os custos para os utilizadores sofreram substantivos aumentos. Ainda assim os lucros não satisfazem os investidores privados e aí temos uma anunciada reestruturação que prevê o encerramento de mais 22 postos de atendimento e o despedimento de largas centenas de trabalhadores.

As reações não se fizeram esperar, desde logo dos trabalhadores os primeiros visados, mas também das populações e de alguns protagonistas políticos que agora, para responderem ao descontentamento dos trabalhadores e das populações se desdobram em declarações contra a reestruturação, sabendo-se que quando podiam e deviam travar o processo de privatização, então sim, deveriam ter-se mobilizado para que tal não acontecesse. Mas não, a modernidade e progresso não é, segundo os próprios, sinónimo de detenção de empresa pelo Estado. Cá por mim que tenho outro entendimento do que deve ser o progresso e a modernidade defendi e defendo que os CTT devem pertencer à esfera pública, afinal trata-se de uma empresa lucrativa que presta um serviço público, que se quer de proximidade e com um serviço de qualidade.

A recuperação dos CTT para o domínio público é um imperativo nacional, de soberania, coesão territorial e justiça social e de defesa do serviço postal público.

É necessário ter em consideração a voz dos trabalhadores e das populações e assumir que como solução a reversão da privatização da empresa CTT Correios de Portugal. O Governo da República não pode continuar a assistir a esta degradação e depredação dos CTT sem nada fazer, deixando prosseguir uma estratégia tendente ao esgotamento progressivo duma empresa com papel fundamental e insubstituível para o país e populações e que emprega mais de dez mil trabalhadores.

Considerando o papel que cabe aos Correios como instrumento insubstituível para a coesão social, económica e territorial do nosso país e que ao Estado cabe a responsabilidade de garantir que os serviços postais são assegurados em condições de igualdade a todos os cidadãos, sem discriminação de qualquer espécie, é imperativo que se inicie o processo de recuperação do controlo e gestão do serviço postal universal por parte do Estado, através da reversão da privatização dos CTT – Correios de Portugal. Esta é uma recomendação do PCP, já feita pelo seu Grupo Parlamentar, na Assembleia da República, aguardemos pelo seu desfecho.

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